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As Gorduras nem sempre são vilões

As “Gorduras do Bem”

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Todos os óleos saudáveis tem pouca gordura saturada e muita gordura insaturada, esta última se dividindo em 2 tipos: mono-insaturadas (exemplo: ômega 9) e poli-insaturadas, especialmente os famosos ômegas 3 e 6.​

Estes componentes gordurosos são chamados ácidos graxos essenciais (que têm esse nome porque não são fabricados pelo organismo mas são essenciais para seu funcionamento).​

Os ômega 3 ajudam a reduzir os níveis de triglicerídeos e (discretamente) a aumentar o colesterol HDL.

Também possuem um efeito de leve redução na pressão arterial.

Podemos encontrá-lo nas nozes, castanhas, peixes especialmente de águas frias, rúcula e nos óleos vegetais, como azeite, canola, soja e milho.​

Houve uma época em que, para se contrapor a dietas excessivamente gordurosas, elaborou-se dietas quase sem gordura.
Assim para se opor a dieta de Atkins que era só gordura veio a dieta de Ornish que era quase vegetariana (Ah bom, permitia clara de ovo e um copo de leite desnatado por dia!).​

Acontece que ambas são exageradas e pouco saudáveis a longo prazo.
Estudos que tentam defendê-las observaram pessoas ao longo de um ano por exemplo.​

Ora, temos que ter uma alimentação saudável por toda a nossa vida, e nenhum destes estudos durou décadas.
Além do mais, ninguém aguenta fazer uma dieta destas a vida inteira. Se insistir, ou adoece ou enlouquece.​

Acontece que a nossa dieta não precisa ser sem gorduras, e nem só gorduras. Existem na natureza as gorduras e óleos saudáveis, os quais é melhor comer do que se abster deles. Um exemplo é o azeite de oliva.

É especialmente rico em ácido oléico, um óleo mono-insaturado ômega 9 e polifenóis, que são antioxidantes.​

Na dieta mediterrânea, estão presentes alimentos gordurosos que são cardiologicamente corretos: além do azeite de oliva, os óleos presentes nos peixes, que contém os famosos ômega-3. ​

No caso do óleo ou azeite de oliva, os principais produtores mundiais são Espanha, Itália, Grécia e Tunísia, não por acaso países banhados pelo mar Mediterrâneo. Este óleo é uma gordura, pois tecnicamente 100 gramas dele contém 100 gramas de gordura, neste caso na forma liquida, ou óleo.​

Um grande estudo acompanhou 90 000 participantes durante 28 anos quanto ao consumo de azeite de oliva: um grupo não usava nada e o outro grupo pelo menos meia a uma colher das de sopa por dia (daí para cima), seja na cozinha ou na mesa.

O resultado? A turma do azeite teve as seguintes reduções em relação ao outro grupo: Menos 19% de mortalidade, menos 19% de doenças cardiovasculares, menos 17% de câncer, menos 29% de doenças neurodegenerativas e menos 18% de doenças respiratórias. Um alimento e um santo remédio!​

Óleo de peixe​

A recomendação de se comer peixes marinhos de águas profundas e frias (100 a 200 gramas 2 vezes por semana) como fonte de ômega 3 esbarra no seguinte:

No nosso meio, longe do mar frio, estes peixes nem sempre chegam lá muito saudáveis e frescos para consumo rotineiro.​

Bacalhau e sardinha são os mais ricos e fáceis de se obter. Atum tem mais é enlatado, não tão bom para uso frequente se tiver muito sal. Uma lata de atum tem aproximadamente 110 g do peixe e 250 mg dos tais ômega 3. E o salmão que temos aqui vem de fazendas do Chile que os criam em tanques rede. São ótimos para se comer, tem um bom custo/benefício mas não são tão ideais como fonte de ômega 3 quanto o salmão pescado no mar aberto, que é bem mais caro.​

Isto posto, na prática é válida a recomendação de se ingerir óleo de peixe sob forma de suplementos, em geral em cápsulas. A AHA (Associação Americana de Cardiologia) recomenda como prevenção secundária (ex.: para pessoas que já têm problemas coronários) doses de até 1.000 mg de ômega 3 por dia.​

Cada cápsula de óleo de peixe destas no mercado tem 1 g de óleo de peixe, mas de ômega 3 tem 300 mg, sendo 180 de EPA e 120 de DHA). Portanto, a dose é de 3 cápsulas por dia (daria 900 mg de ômega 3) o que costuma nos fazer arrotar um gosto de emulsão de Scott (lembra?) o dia inteiro.​

Para a prevenção primária (para quem ainda não teve infartos ou quetais) a AHA tira o corpo fora e continua dando preferência à alimentação, aconselhando a apenas comer os tais peixes marinhos.​

Como na prática, pelos motivos expostos, ninguém aguenta ou consegue comprar e comer peixe na quantidade necessária (a menos que more à beira mar em uma cidade pesqueira) uma sugestão é tomar 2 cápsulas por dia se a pessoa não comer nenhum peixe e uma cápsula/dia se comer os tais peixes pelo menos 2 vezes por semana.​

O ômega 3 de origem vegetal, o acido linolênico, presente no óleo e no farelo de linhaça, também tem sido indicado por similitude (vide em seguida), mas não se pode perder de vista que os estudos observacionais de desfechos cardíacos em populações que validaram os ômega 3 foram feitos com de origem animal, dos peixes.​

Linhaça​

A linhaça nada mais é do que a semente do linho (Linum usitatissimum), o mesmo linho que nossos avós usavam para fazer aqueles ternos brancos bacanas, que eram muito frescos e próprios para se usar no calor dos trópicos, de preferência com um chapéu panamá.​

É um ácido graxo ômega 3 de origem vegetal, ao contrário dos outros ômega 3 famosos (ácido docosaexaenóico ou DHA e eicosapentaenóico ou EPA) que são de origem animal, dos peixes marinhos bacalhau, atum, salmão e também da nossa sardinha.​

Este ômega 3 vegetal, por ser originário do linho, recebeu o nome de ácido alfa-linolênico,ou ALA).​

A farinha da semente de linhaça (mas não o óleo) contém, além do ômega 3 citado, grande quantidade de fibras que também são importantes numa dieta equilibrada.

A semente de linhaça é tem também fitoestrógenos que podem ter ações como antioxidantes e nos receptores estrogênicos. Diante de tudo isto, recebeu a classificação de alimento funcional.​

Canola​

O óleo de canola é considerado um dos mais saudáveis óleos de uso na cozinha.

Ele teve sua origem numa planta chamada colza, muito cultivada no Canadá.

A colza dava um bom óleo, exceto por um problema: tinha um excesso de ácido erúcico, que além de ter um gosto amargo, era muito indigesto.​

Através de cruzamentos genéticos de subespécies da colza, os canadenses desenvolveram uma nova e linda planta, de flores amarelas, com baixo teor de ácido erúcico. A esta planta se deu o nome de canola, palavra esta que tem origem na expressão técnica: CANadian Oil Low Acid.

O chocolate​

O chocolate não faz parte da dieta mediterrânea, mas também pode ser considerado uma gordura do bem.​

Na época dos astecas, era chamado de alimento dos deuses, daí o nome científico do cacaueiro: Theobroma cacao (theo = deus e broma = alimento), e dai também veio o nome da substância teobromina, presente no cacau, e que tem efeito estimulante.​

Do grupo das metilxantinas estimulantes fazem parte a teobromina e a cafeína.

O navegador genovês Cristóvão Colombo foi um dos primeiros europeus a provar o chocolate, que foi apresentado a ele pelos astecas, que o usavam como alimento e também nos seus rituais místicos e religiosos.​

Sua versão amarga é a mais rica em cacau (de acordo com as normas européias tem que ter no mínimo 35%, de cacau) e não por acaso a considerada mais benéfica para o sistema cardiovascular, por ser rica em polifenóis antioxidantes.​

O conceito mais atual é que alguns dos efeitos benéficos seriam por impedir a oxidação do LDL colesterol e por reduzir um pouco a pressão arterial.

As nozes​

Nozes como a noz propriamente dita, amêndoa, avelã, castanha de caju e do pará, pistache e outras.

O amendoim, apesar de colocado junto com as nozes, é uma leguminosa.

Muitas nozes não são nozes do ponto de vista botânico, mas podem ser assim chamadas do ponto de vista culinário.

Estudos epidemiológicos mostraram que pessoas que consomem regularmente nozes tem menos risco de sofrerem problemas coronários. Elas contém várias substâncias que teriam efeito cardioprotetor, tais como antioxidantes e especialmente ômega 3.

Então, pra resumir, existem muitas gorduras do bem, mas fica um alerta: Nunca consumi-las em excesso, pois são calóricas ao extremo: 9 calorias por grama, contra 4 dos carboidratos e proteinas.

Se exagerarmos buscando benefícios, acabaremos ficando “gordinhos saudáveis”

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Dos Limões e do Lago

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Limone Sul Garda é um típico vilarejo italiano daqueles vistos nos filmes, nos quais sonhamos em passar uma temporada, quando nos aposentarmos ou ficarmos ricos.

Casinhas cor de tijolo ao redor de uma igreja, um brilhante lago azul em frente,

já admirado na época do império romano, e por detrás as montanhas.​

Apenas 1.034 habitantes, sendo que em 1861 eram 548. Ou seja, levou um século e meio pra dobrar a população!

Isto dá uma idéia de como a vida lá deve passar lentamente.​

O nome da vila se refere a duas coisas típicas do local: o lago de Garda e os limoeiros.​

Seus moradores dizem que é o lugar mais ao norte da Itália onde se pode cultivar os famosos limões sicilianos, trazidos da quente e ensolarada Sicília, ilha que fica lá embaixo, bem ao sul do mapa, onde é chutada pela bota.​

Assim, apesar do clima mais frio eles podem colher limão direto do pé pra tomar uma fresca spremuta de limone. Ou beber após a sobremesa uma ou duas doses de limoncello feito em casa.​

Nem que para isto cheguem a plantar os limoeiros dentro da própria casa, em aconchegantes jardins de inverno envidraçados (as orangeries).​

Mas na maioria das vezes as plantas ficam em vasos enormes lá fora no jardim, que no inverno são levados para dentro num espaço apropriado chamado limonaia.

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Limone fica bem ao norte mesmo, em Brescia, na Lombardia. Mais um pouco e se chega nos Alpes Suíços, ou na Áustria.​

Ficou isolada até 1932 quando uma estrada primorosa, a Via Gardesana, obra prima da engenharia com seus inúmeros túneis e pontes, permitiu que o mundo e os turistas chegassem até lá de carro.​

Mas foi só em 1979 que ela ficou mesmo famosa, quando um cidadão limonês foi fazer exames em Milão.​

Os médicos ficaram atônitos: apesar de níveis de colesterol total e triglicérides nas alturas, o sujeito não tinha nenhum sinal de placa de ateroma! Nenhuma obstrução nas artérias! E ainda por cima tinham o colesterol HDL, o tal protetor, em níveis baixos!​

Buscaram seus três filhos e fizeram os exames: dois tinham o mesmo achado.​

Mas que história é esta? O esperado era que pessoas com estas alterações (colesterol e triglicérides muito elevados e HDL muito baixo) já estivessem com vários entupimentos pelo corpo. E eles não tinham nada?​

Os doutores então correram pra Limone, examinaram seus habitantes e pimba! Muitos tinham os mesmos achados, e mais: eram todos da mesma família, descendentes do casal Cristoforo Pomaroli e Rosa Giovanelli, que se casaram em 1644.​

O isolamento que os limoneses viviam antes da chegada da estrada propiciou muitos casamentos consangüíneos, e aí a genética fez sua parte. O que normalmente é um problema (consangüinidade), aqui foi benéfico.​

Um gene “do bem” passado adiante por várias gerações fazia com que o sangue dos seus portadores tivesse um “super HDL”, uma potente mutação do HDL.​

Na verdade, os níveis de HDL eram sim baixos, mas era uma mutação do HDL, em que pouco valia muito, em que cada HDL destes deveria valer vários dos HDL habituais, “superfuncionante” e superpotente (as partículas são maiores e mais densas), que os protegia de doenças cardiovasculares.​

Isto explicava porque eles não tinha nada de anormal nas artérias, apesar do colesterol total e dos triglicérides muito elevados.​

O potencial dano que estes últimos provocariam era anulado pela proteção do tal HDL mutante. (1)​

Como foi esta descoberta em Milão, esta mutação recebeu o nome de Apo-A1 Milano (apo de apolipoproteina, que é a principal proteína componente do HDL, que apesar de chamarmos de HDL colesterol, é uma lipoproteína, isto é formada de um lípide, que é o colesterol e de uma proteína, a Apo-A1).​

Mas por justiça deveria ser Apo-A1 Limone! Esta Apo A-1 era especialmente potente em fazer o tal “transporte reverso do colesterol”: retirá-lo da circulação e também das paredes das artérias e levá-lo para o fígado, para ser metabolizado e eliminado.

A Apo A-1 não é propriamente um remédio, mas uma proteína especial fabricada pelo corpo e que carrega gorduras. Seria como um caminhãozinho vazio passeando pela circulação sanguinea e carregando em sua caçamba todo o colesterol que encontrar. Quando se enche de colesterol, ai sim ele este caminhãozinho que estava vazio (a Apo A1) muda de nome e passa a se chamar HDL, que nada mais é do que uma associação de proteinas com gorduras, uma lipoproteína.

O diferencial que o torna “do bem” é o que ele faz com o colesterol que ele carrega: despeja-o diretamente no fígado, que é a usina que vai queimá-lo. É o contrário do que faz o LDL, que despeja o colesterol direto na circulação, que em excesso vai entupir as artérias.​

Como é uma partícula complexa demais para ser sintetizada em laboratório, recorreu-se à engenharia genética, ensinando bactérias a fazê-lo.

Estava pronta a apo A1 recombinante.​

Primeiro os testes com animais, e depois com humanos com placas de gordura nas coronárias, feitos na prestigiosa Clínica Cleveland, nos Estados Unidos, a mesma das pontes de safena.​

O resultado foi como esperado, uma boa regressão nas placas, com uma injeção semanal por apenas cinco semanas, muito maior do que o máximo que já se tinha conseguido até então com outros remédios (2)​

O grande nó é que, exatamente como as primeiras doses de penicilina, a apoA1 recombinante ainda tem três graves limitações: é rara, cara e só existe na forma injetável.​

Mas é uma questão de tempo, interesse e investimentos.​

Para se ter uma idéia da raridade da penicilina nos seus primórdios, em março de 1942 foi tratado um paciente com septicemia, no qual foi usada simplesmente metade de todo o pequeno estoque deste antibiótico existente no planeta!
Em junho do mesmo ano a coisa evoluiu, e já havia penicilina no mundo disponível para tratar dez pacientes! A partir daí a evolução foi tão rápida que para a invasão da Normandia em 1944 o esforço de guerra já havia produzido mais de 2 milhões de doses!​

No caso da penicilina, a guerra acelerou as coisas, permitindo um avanço razoavelmente rápido: da descoberta por Fleming em 1929 até 1944 se passaram 15 anos.​

A primeira estatina para baixar o LDL teve sua descoberta pelo japonês Endo em 1976 e até o seu lançamento no mercado em 1988 se foram 12 anos.

As patentes dos medicamentos duram 20 anos, a contar do registro inicial da molécula descoberta. Os primeiros dez anos destes vinte são gastos em pesquisa, no começo com animais, depois com voluntários sadios e finalmente em grandes estudos clínicos, agora já com pessoas que têm o problema alvo do medicamento.
Então, correndo tudo bem, é lançado no mercado e a empresa descobridora tem então mais 10 anos até completar os vinte e aí expirar a patente, para correr atrás e recuperar todo o investimento que fez, em geral na casa de centenas de milhões de dólares, e obviamente tirar algum lucro. Lucro este que no caso particular das estatinas, devido ao seu estrondoso sucesso, é de bilhões de dólares.​

Isto tudo levado em consideração, a questão do HDL bem que está demorando. Afinal, o tal super HDL de Limone foi descrito em 1980, e só em 2003 (23 anos depois) veio o trabalho da Cleveland Clinic já citado, com o primeiro HDL “fabricado”.​

E daí para um lançamento no mercado ainda não há nenhuma previsão.​

Pode ser que em parte esta demora se deva exatamente ao grande sucesso das estatinas, que só agora dão algum sinal de esgotamento, de terem chegado ao máximo de seu potencial: reduzir o risco mesmo em indivíduos com LDL colesterol normal.​

Exaurido o horizonte do LDL, então o HDL passou a ser a bola da vez, mas a coisa não parece ser tão fácil como o caso do seu parente vilão.​

Para complicar, descobriu-se que existem várias subfrações do HDL, e que aumentar o HDL total não significaria obrigatoriamente benefício, se não se souber qual subfração dele está sendo elevada, e qual afinal deve ser efetivamente elevada.​

A indústria teria que nos disponibilizar um HDL (ou apo A1) em cápsulas, para ser tomado por via oral. Fazê-lo em grande escala através das bactérias custa caríssimo!​

Vamos ter que aguardar a coisa evoluir.​

Já estão alterando o gene de algumas plantas para fabricá-lo, com boa redução do custo, mas ainda vai demorar um bocado.​

Também a penicilina primeiro só existia via injetável, em quantidades mínimas, e depois passou a ser sintetizada em laboratório e disponibilizada via oral, e a um custo irrisório.​

Por outro lado, nosso organismo já fabrica o HDL, em umas pessoas mais, em outras menos.​

Não é o super HDL de Limone, mas também é muito bom, desde que nas proporções adequadas para se atingir o número mágico. Então, neste aspecto do HDL ainda estão em fase de pesquisa medicamentos que possam melhorar sua quantidade no organismo, e principalmente sua função benéfica.

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A Dieta do Mediterrâneo

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Como surgiu esta história toda da dieta do mediterrâneo?

​Em parte pode ser explicada pelo seguinte:

Desde há uns bons séculos as regiões mais ao norte dos países europeus sempre foram mais ricas e abastadas que as do sul.​

A turma mais ao norte tinha rebanhos e gado de toda espécie, muitas  terras boas e florestas com caça em abundância. Produzia leite e queijos gordos em quantidade, usavam banha em todas as comidas que faziam e sua dieta era uma gordureba só.​

Já a turma mais ao sul tinha uma terra mais difícil de lidar, tinha menos recursos financeiros para investimento, conhecia menos técnicas de agricultura e tinha que se virar para obter  proteína, já que não possuíam rebanhos como seus colegas do norte. Na falta de gado, tinha que buscar proteína no mar, sob a forma de peixes.​

​Os terrenos mais pedregosos não davam grandes colheitas de trigo, mas davam excelentes vinhedos, pois sabe-se que quanto pior o terreno melhores as uvas.

E também o vinho.​

Queijo e leite? Só de cabras, animais que se viram e acham o que comer em qualquer terreno, por mais pedras e morros que tenha. Aliás, isto é até do gosto destes animais.​

​Também a oliveira não é muito exigente com as condições de terreno.​

As poucas terras melhores davam pra plantar hortaliças, bem adaptadas ao clima mais quente, como berinjelas e tomates. E, claro, as árvores frutíferas.

​Pronto, com a adaptação do povo mais simples do sul, que não tinha a abastança de seus irmãos do norte acabou sendo criado um cardápio dos mais saudáveis do mundo: peixes em quantidade, azeite de oliva inclusive para cozinhar, vinho, frutas e hortaliças e queijo e leite de cabra. Completava a mesa pães de cereais não refinados.

​Uma dieta já demonstrada em vários estudos como a mais “cardiologicamente correta”, conferindo proteção ao sistema cardiovascular.

​As regiões consideradas como o “berço” da dieta mediterrânea, como a conhecemos, são o sul da Itália e sul da Grécia, além da ilha de Creta.

​Séculos depois, o norte rico e mais desenvolvido passou a invejar e copiar esta dieta, levando à irônica afirmação de que os pobres comem melhor que os nobres.

​Esta dieta foi muito bem vinda.

​​Hoje tem muita gente querendo comer de forma saudável, ninguém gosta simplesmente do “não pode isto e não pode aquilo”, sobrando para se comer só coisas insossas e sem graça.

​Ou seja, uma antipatia sem medida.

​Já na dieta do mediterrâneo (e talvez isto explique o seu sucesso e sua fácil adesão) o capítulo do que “pode” é grande, e o que pode é, além de saudável, realmente muito saboroso.

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Exercícios Físicos

 

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Uma das maiores ameaças à saúde é o sedentarismo. E, dentro dos conceitos atuais, um dos menos combatidos, apesar de muito mais fácil do que se imagina, como veremos a seguir.

Quais são os limites? Considerando-se a obtenção de benefícios de prevenção cardiovascular, sem se preocupar com condicionamento aeróbico, os limites ideais correspondem a um gasto energético com atividade física de 700 a 2 000 calorias por semana.

Abaixo de 700 é insuficiente. Acima deste valor, já se perde o rótulo de sedentário. Não é grande coisa, mas já dá pra sair da turma dos Homer Simpsons, dos batatas de sofá.

A partir daí, os benefícios são crescentes até 2 000, acima do que não há ganho adicional para o coração em termos de prevenção, só mesmo um melhor condicionamento aeróbico.

Um exemplo de gasto de 700 calorias? Caminhar por meia hora, três a quatro vezes por semana, num total de 7,5 a 10 km por semana. Um exemplo de 2 000? Andar 30 km por semana (5 km em uma hora 6 vezes por semana) ou correr o mesmo percurso semanal (5 km em meia hora 6 vezes por semana).

Isto tudo de uma forma constante e moderada, sem exageros ou oscilações extremas, ou de um entusiasmo súbito seguido de abandono total. A este respeito, temos o comentário bem humorado de um autor que deu a melhor definição que conheço deste preparo físico tipo “fogo de palha”:

“É uma vaga moléstia contagiosa, caracterizada por uma agitação intensa e febril, que geralmente atinge grupos de amigos homens entre 30 e 50 anos de idade, dura entre três a quatro semanas, e então termina tão de repente quanto começou, sendo rapidamente curada por doses terapêuticas de cerveja, tornando o paciente imune a novos contágios”.

Exercícios físicos feitos regularmente se destinam a combater o sedentarismo, que é um dos sete fatores de risco para as doenças das coronárias que podem ser modificados. Além de melhorar o perfil de risco cardiovascular, a atividade física é recomendada para os adultos urbanos não-atletas com o objetivo de emagrecer e também para se melhorar o condicionamento físico, que permite que se façam esforços maiores com menos cansaço. Um dos primeiros estudos a ser desenvolvido relacionando atividade física e doença arterial coronariana, foi conduzido em Londres, na década de 50, quando foram comparados carteiros (que andavam muito) e trabalhadores (sedentários) de escritório dos correios. Também se comparou os motoristas (sempre sentados) e os cobradores (que subiam e desciam as escadas) dos ônibus de dois andares em Londres. Observou-se pela primeira vez o que hoje é considerado óbvio: que atividades ocupacionais com maior gasto energético estavam associadas com menores taxas de morte por doenças cardíacas coronarianas. Os carteiros e cobradores tinham melhor saúde cardíaca que seus sedentários colegas de trabalho.

Desde que o Dr Kenneth Cooper contribuiu para a popularização do condicionamento aeróbico, os calçadões e parques se tornaram repletos de pessoas de todas as idades fazendo caminhadas e “jogging”. Estas atividades constituem, juntamente com a natação e o ciclismo, o que se chama de modalidades aeróbicas básicas, nas quais são importantes a duração e a intensidade do exercício. As pessoas que as praticam estão melhorando o seu perfil de risco cardiovascular, e além disso, aumentando sua capacidade física. Exemplos: caminhar 6 quilômetros em 50 minutos; correr 5 quilômetros em meia hora; pedalar 8 quilômetros em meia hora. Mas assim como com a falta de exercícios é danosa, o excesso também pode sê-lo. A pergunta que não quer calar é: até que ponto os exercícios são benéficos, e a partir de que ponto se tornam um excesso e um risco? Onde está o limite entre prevenir doença e provocar doença?. Com a prática de corridas, o grande perigo é que a ideia do “quanto mais, melhor” que pode levar a exageros não saudáveis para o adulto urbano não atleta profissional. Veja-se por exemplo o caso da maratona. Uma modalidade que deveria se restringir a atletas de alta performance acaba tendo adesões dos “weekend warriors” como são chamados em língua inglesa aqueles atletas de fim de semana, os “não-elite”. Foram observadas em desfavor destes alterações preocupantes na função ventricular ao ecocardiograma e nos níveis sanguineos de marcadores de necrose do músculo cardíaco, logo após cruzarem a linha de chegada de uma maratona. 

Os atletas de elite, além de dedicarem todo o seu tempo profissional ao treinamento, têm equipes estruturadas capazes de diagnosticar problemas não só numa única avaliação pré-participação, mas em exames seriados ao longo da carreira do atleta. Além disto, têm toda uma estrutura de profissionais de apoio, que dosam judiciosamente a qualidade e a quantidade de cada caloria que eles ingerem, dentre outros inúmeros cuidados. Não sofrem as pressões do dia a dia do trabalho burocrático, não fumam ou bebem, dormem cedo, etc e etc, o que  não sói acontecer com os “não-elite”, ou “maratonistas recreativos”. Sem falar que nem todos são geneticamente favorecidos para tamanho desafio, para um stress físico e mental tão intenso. Existe uma especulação não provada, mas provavelmente válida, quanto ao aspecto genético dos grandes campeões africanos, como os corredores da Etiópia e do Quênia e suas marcas espetaculares. É possível que em tempos primitivos, seus ancestrais tenham sido selecionados para a corrida em um ambiente hostil. Ora dando um galope atrás da caça, ora fugindo das feras. Ora correndo atrás de comida, ora correndo para não virar comida.

Os excessos de corrida não são para o cidadão comum. Talvez o limite para este último seja a meia maratona, o que aliás não é pouca coisa, e mesmo assim após um bom período de treino.

Já para se emagrecer, a duração da atividade física é mais importante que a intensidade. Exemplo: caminhar 6 quilômetros em uma hora e meia é mais eficaz para se perder peso do que correr à toda velocidade durante 20 minutos. Aqui, não conta tanto “colocar os bofes para fora”, mas perseverar num exercício prolongado e contínuo, mesmo que menos intenso. O organismo começa a queimar os depósitos de gordura quando a pessoa ultrapassa a primeira meia hora de atividade. Antes, estava queimando principalmente glicose e glicogênio, isto é, carboidratos.

Recentemente, foi reconhecido que atividades mais leves e espaçadas, quando praticadas diariamente, também seriam úteis para se melhorar o risco de problemas cardíacos, apesar de não levarem a um maior condicionamento aeróbico, e nem de serem úteis para emagrecer. É a “ginástica parcelada”, que nada mais é do que a soma de vários pequenos períodos de atividades físicas que se realiza no decorrer do dia. Exemplos: pequenas caminhadas, como quando se vai para o trabalho ou para fazer compras a pé; jardinagem; dança; lides domésticas em geral. Estas atividades poderiam até mesmo substituir os programas regulares de exercícios, para aqueles que não têm oportunidade de fazê-los.

Portanto não é preciso treinar como um atleta olímpico para ter menor risco cardiovascular.

Eis algumas dicas para a “ginástica parcelada”, para o seu dia-a-dia em casa, no trabalho, nas compras e passeios:

  1. Usar as escadas no lugar do elevador ou da escada rolante.

  2. Não se preocupar em “estacionar na porta”, mas sair um pouco antes, parar o carro um pouco mais longe e ir a pé.

  3. Caminhar pelos corredores dos shopping centers.

  4. Caminhar num caminho alternativo, um pouco mais longo, para o seu destino, sem se preocupar em estar “dando a volta”.

  5. A jardinagem (30 minutos por dia) fará com que seu corpo exerça uma ampla gama de movimentos, além do contato saudável com as plantas.

  6. Se tiver crianças, como filhos ou netos, brinque um pouco com elas. Brinque de “pegador”, ajude-as a pular corda, e outras coisas que elas sugerirem (e que você obviamente tolere!). Eventualmente, leve-as ao parque de diversões.

  7. Você “pode exagerar os movimentos”, propositalmente, ao fazer lides domésticas como encerar, varrer ou passar o aspirador.

  8. Lavar e encerar o carro.

  9. Fazer compras na mercearia ou mercado (e depois guardá-las em casa).

  10. A dança é boa para o corpo e a cabeça. Além de momentos de lazer e descontração, proporciona os mais variados níveis de atividade física. Desde ritmos suaves, perfeitamente adequados para idosos e cardíacos, até os modernos funk e as músicas baianas, que não deixam nada a dever à ginástica livre, em termos de exercício.

  11. Tenha no carro um “kit esporte”. Isto mesmo: uma caixinha ou sacola com um par de tênis, meias de algodão, um short ou um calção de banho, uma camiseta e uma toalha. Nunca se sabe a hora e o lugar em que poderá aparecer uma oportunidade para se exercitar. Todo mundo já se viu em situações imprevistas, como ter que esperar por alguém 40 minutos. Ou passar de carro por um local aprazível, com disponibilidade de tempo, em que se possa parar e dar uma caminhada. Ou ter um compromisso cancelado, num final de dia, que permita passar pelo clube e nadar. São situações inesperadas, que podem ser aproveitadas com qualidade, saindo da monotonia de forma agradável e saudável. Mesmo que feitas de uma maneira esporádica e não-regular, estas atividades representam um momento de descontração e alívio das tensões. É só lembrar que, exatamente por serem eventuais, deve-se manter uma intensidade de exercício mais baixa, para não se exigir demais de um organismo menos condicionado.

Além de reduzir o risco cardiovascular, atividades físicas moderadas, feitas diariamente, contribuirão para reduzir a depressão e a ansiedade, melhorar o “astral” e a disposição para as tarefas diárias.

Cada vez mais a medicina confirma a necessidade de se combater o sedentarismo, na era dos lares com controle remoto e telefone sem fio, que tendem a nos prender no sofá.

E, felizmente, cada vez mais a medicina vem descobrindo alternativas de atividades físicas para os não-atletas, de fácil execução. E nem por isto menos eficazes em melhorar o perfil de risco.

Um estilo de vida mais saudável está ao alcance de todos.

Só é sedentário quem quer.

Obs.: Texto modificado do artigo “Exercícios: Vigorosos ou Leves?” originalmente publicado pelo autor no jornal Estado de Minas, em 26 de junho de 1998.

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